top of page
Buscar

Ser Forte não significa não precisar

  • Foto do escritor: Marcia Dias
    Marcia Dias
  • 11 de fev.
  • 3 min de leitura

Hoje de manhã eu peguei o ônibus.

Sim, eu peguei o ônibus. Nem todo mundo dirige. Alguns por escolha, outros por necessidade, outros por limitação. E essa é uma das minhas: eu não dirijo. Quem sabe pela ansiedade, quem sabe pelo trânsito caótico, quem sabe pela falta de paciência com o desrespeito nas ruas… enfim, essa é a minha realidade.


Normalmente eu vou tranquila, sentada, lendo, ouvindo música ou minha aula de.ingles, planejando e pensando na vida. Mas hoje aconteceu algo diferente.


Quando o ônibus parou e eu me levantei para descer, um senhor passou na minha frente. Na hora, meu pensamento foi automático: “Poxa, que desrespeito… atravessou na minha frente para descer primeiro.” A gente anda tão acostumado com a pressa e com a falta de educação que já cria uma defesa imediata.


Mas, quando ele desceu o último degrau, virou, estendeu a mão e ficou ali, esperando que eu segurasse para descer com mais segurança.


E antes que alguém pense que foi um flerte, não foi. Eu mesma perguntei. E ele respondeu com simplicidade:

“Eu notei que a senhora tem uma faixa elástica no joelho e imaginei que poderia ser difícil descer.”


Só isso.


Ele observou. Ele pensou. Ele teve consideração.


Eu segurei na mão dele — e desci com mais do que apoio físico. Desci com um lembrete: ainda existe gentileza.


E aquilo ficou ecoando em mim. Quando foi que a gente perdeu esse tipo de atenção? Quando foi que começamos a olhar apenas para o próprio umbigo?


E não estou falando só dos homens. Vejo isso entre mulheres também. Antigamente, uma mulher via outra grávida e levantava sem pensar. Olhava com empatia. Se colocava no lugar. Hoje parece que todo mundo quer ser dono da rua, dono do ônibus, dono da fila do mercado, dono da razão.


E isso é cansativo.


Mas quero deixar algo muito claro para os homens: quando falamos em empoderamento, não quer dizer que não gostamos de ser cuidadas. Não quer dizer que não apreciamos um gesto de atenção, de educação, de carinho.


Empoderamento não é rejeitar cuidado.

Empoderamento não é competir.

Empoderamento não é querer tomar o lugar de ninguém.


Para mim, empoderamento nasceu da necessidade. Nasceu dos dias em que tivemos que acordar e trabalhar sozinhas, buscar filhos, resolver problemas, assumir mil e uma funções sem esperar que alguém fizesse por nós. A força veio porque precisou vir.


Isso não nos torna melhores. E existem muitos homens que eu admiro profundamente, que fazem tudo isso também, com responsabilidade e amor.


Eu não sou extremista. Acredito em equilíbrio. Nem todos têm as mesmas facilidades, nem todos conseguem fazer as mesmas coisas. Mas todos deveriam ter o mesmo respeito.


E eu pergunto: onde está a gentileza masculina? Aquela de abrir a porta, de dar um “bom dia” por educação, de puxar a cadeira, de servir primeiro o copo da mulher antes do seu, de trazer uma flor sem data especial, apenas para demonstrar atenção?


Ser empoderada não significa que eu não queira carinho.

Ser forte não significa que eu não precise de cuidado.

Ser independente não significa que eu não valorize uma mão estendida.


Talvez o maior erro seja transformar tudo em disputa: homem contra mulher, força contra fragilidade, independência contra delicadeza.


Não precisa ser assim.


Vamos normalizar a empatia. Vamos normalizar o cuidado. Vamos normalizar a gentileza — entre homens e mulheres, entre mulheres e mulheres, entre pessoas.


Porque quando a gente começa a se tratar de igual para igual, com humanidade e consideração, a gente percebe que não está fácil para ninguém.


Hoje eu desci do ônibus com uma certeza simples: o mundo não está perdido. Mas ele está carente de gentileza.


E talvez seja exatamente isso que esteja faltando — menos disputa, mais mãos estendidas.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Não Normalize! Nao Fuja. Cure!

Cada pessoa administra a dor de um jeito. Seja ela física, seja emocional. Há quem silencie. Há quem chore. Há quem corra. Há quem trabalhe. Há quem produza mil coisas num único dia. Mas existe uma di

 
 
 

Comentários


bottom of page